AGRAVOS PSICOLÓGICOS DO ESTUPRO

Por Bárbara Andrade*

“[…] Não houve constrangimento.”. “Sexo: se não é opção, é abuso.”
A dignidade do ser humano é intransponível e intransferível.

Começo este texto com estas frases que causaram discussões nos ambientes cibernéticos e não cibernéticos, gerando várias indagações acerca do “lugar” da mulher, o direito de não ser invadida, abusada, mulher como objeto sexual, empoderamento, Leis ou leis? Ética ou ótica? Abuso ou estupro? Será que o abuso ou mesmo estupro é somente quando há penetração, e os agravos simbólicos disso?

A Organização Mundial da Saúde – OMS considera violência contra a mulher qualquer ato que cause ou tenha alta probabilidade de causar dano físico, sexual, mental e porque não dizer também social. Pois, quando se pensa em abuso sexual pensa somente nas causas físicas e sexuais e, ainda, se permeia a cultura do estupro – Quando se interessa saber quem é o algoz, sempre a culpabilidade recai sobre a vítima (roupas, lugar errado/inapropriado, verbalizações etc.).

Mas, as causas não são somente estas e digo que a “marca” simbólica é muito maior do que se pensa. Será que a Justiça ou mesmo esta cultura patriarcal arraigada em algumas veias sociais pararam para pensar, por exemplo, nesta mulher que teve em seu pescoço resquícios de esperma ou mesmo estas tantas mulheres que são assediadas e/ou estupradas em seu ambiente de trabalho, lar ou na rua, ficam marcadas psicologicamente?

Citados por Souza e colaboradores (2012), Villela e Lago (2007), falam que, “É necessário enfrentar essa problemática nos âmbitos públicos da Segurança, do Direito e da Saúde, pois a violência sexual provoca uma gama variada de consequências nas suas vítimas”. Para Diniz (2007), “A violência contra a mulher é o retrato da desigualdade de gênero existente no país, que determina papéis, posições e deveres diferentes do feminino e do masculino.”.

Os agravos psicológicos são inúmeros em mulheres que são vitimas de abuso sexual, agravos como: ansiedade, depressão, suicídio, transtorno pós-traumático (TEPT), sentimentos de medo da morte, sensação de solidão, transtornos da sexualidade (vaginismo, dispareunia, diminuição da lubrificação vaginal ou mesmo a perda do orgasmo), dentre outros. Em sua grande maioria, as vítimas sentem-se “sujas”, “feias” e “nojentas”, além de ter vergonha de seu próprio corpo.

Ao tentar “sobreviver” a este trauma, ao ter suas barreiras violentadas, invadidas, tenta fazer suas ressignificações acerca de novos limites entre si mesma e o mundo. Porém, em algumas vítimas tais delimitações são construídas subitamente pela evolução traumática, como por exemplo: ganho de peso, desleixo pessoal, baixa autoestima, introspecção social, o não se sentir atraente sexualmente, problemas de aprendizagem (principalmente em crianças e adolescentes) ou de comportamento. Vale lembrar que quando tais sintomas supracitados tornam-se frequentes e permanentes torna-se de ordem patológica.
Essas ressignificações na maioria dos casos, só há possibilidade de acontecer pela terapia psicológica, e em alguns casos também pela terapia medicamentosa (Psiquiatra), ambas oferecerão a vítima possibilidade de elaborar essa experiência que para muitas é da ordem do insuportável, do angustiante que acaba causando um sofrimento biopsicossocial.

O “abuso social” a mulher/feminino e porque não dizer às pessoas transgêneros, transexuais, homossexuais, de cor negra, com transtornos psíquicos, com deficiência visual, sensorial ou mesmo que não esteja nos padrões de beleza efetivamente é um problema de políticas públicas. Vivemos numa sociedade adoecida pela falta de compreensão de que a diferença nos faz melhor ou pior que o outro, porém é na diferença que devemos ser respeitados e compreendidos.

Ainda, se coloca a mulher no lugar de objeto sexual ou mesmo de submissão – seja nas músicas abusivas e de cunho pejorativo, nos ambientes laborais no que tange aos lugares hierárquicos, acadêmicos, sociais, etc. Mas este não é o seu lugar. O lugar da mulher com certeza é onde ela quiser, exceto no lugar de prazer ao sexo oposto.
A mulher vale muito mais que $3,80, ela tem o valor de vida, de essência. Exijo respeito ao desejo do ser humano, ser o que ele deseja ser, principalmente na condição de ser mulher!

Bárbara Andrade
Psicóloga – CRP 03 6845
Consultório Psi. Edifício Boulevard, sala 503, Avenida Aziz Maron – Itabuna, Bahia.

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