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ELEIÇÃO: A ANTIGA FANTASIA DO PARAÍSO QUE NÃO CHEGA

Por Fernando Caldas*

Para o torcedor, o dia mais feliz é o do título. Um êxtase toma lugar e, por instantes, a vida parece bela e o universo ganha sentido. Vencer é se sobrepor ao outro, ao que traja uniforme diferente. Ser humano é competir, eleger adversários e desenhar brigas imaginárias e conseqüências. Mito e emoção, de mãos dadas, traçam o destino dos mortais, e todos possuem seu gueto: estético, festivo, esportivo, religioso ou político. Este último, o mais intrigante, porque, ao contrário dos demais, mistura realidade material e sonho. Arte, carnaval, futebol e religião, por exemplo, são absolutamente categorias do mundo imaginário, brumas, fantasias, existem no universo mental coletivo e, embora até se mate por tais causas, aquelas pulsões não passam de subjetividades, fixações e, em muito sentido, doença psíquica. A política, entretanto, diz respeito a fazeres ordinários. Num sentido lato, a ação política envolve desde um acordo de arrumação de móveis numa residência até a assinatura de um tratado de guerra de uma nação para com outra. Mas quero falar, neste breve texto, do sentido menor de política, que são as eleições municipais. Esse momento cíclico e idêntico, essa ilusão inventada por gregos antigos.

Para que serve um prefeito? Em tese, para gerir uma empresa, seu orçamento, prioridades, funcionários, parceiros. Uma empresa mantida por impostos. Um prefeito competente será aquele que conseguir equilibrar receita e despesa, mantendo as contas em dias e empreendo níveis de manutenção aceitáveis nos diversos setores. Os recursos são limitados, o tempo de administração é mínimo, pois logo virão novos gerentes e um novo prefeito cuidará do conglomerado. Um trabalho burocrático, rotineiro, cercado de promissórias, fundos, legislação e planos orçamentários. Porém, porque vivemos numa democracia, determina-se que esse empresário seja escolhido pelo povo. Povo esse, em sua maioria, completamente ignorante quanto ao funcionamento da empresa. E, onde há ignorância as paixões comandam e, onde há paixão, há mito.

Assim, a escolha do administrador municipal se transforma numa competição esportiva. A razão vai às favas e a cidade inteira começa a vibrar numa freqüência alucinada, e assistimos a uma histeria coletiva. Todos tomam seus postos, uns de vermelho, outros de verdes, outros de azul, berrando numerais, possessos. Ocorrem grandes carreatas e caminhadas, verdadeiros rituais dionisíacos, regados à cerveja, cantigas e ofensas às cores e números alheios. A fuzarca dura até o dia cinco de outubro, ao final da tarde. Depois, um breve silêncio e, ao cair da noite, um dos grupos irá às ruas gritar pela última vez e doar alguns dólares a mais aos cofres da AMBEV. Um mês depois, os loucos todos já terão voltado à vida normal – que é afinal, a realidade, com suas querências e pobrezas de todo dia.

Em janeiro, o administrador novato toma posse e, num breve espaço de tempo, passa a ser criticado por aqueles que corriam empunhando sua bandeira, poucos meses atrás. Ou elogiado por outros, beneficiados pessoalmente de alguma forma pelo novo governo. Os miseráveis continuarão miseráveis, os feirantes continuarão feirantes, os professores – quase todos vermelhos de tão tristes -, continuarão na sua rotina, frente aos seus analfabetos sem cura. Porque, como diz o poeta, para isso fomos feitos, e não tardará uma copa do mundo, uma outra eleição. Marx reeditou o mito do paraíso na Terra, e são os que nisso creem os fabricantes dessa agonia chamada eleição. Prefiro ficar com Jesus, acreditando que o nosso Reino não é aqui, porque o homem não pode salvar o homem, se somos vaidade e de vaidade não passamos.

*Fernando Caldas é Filósofo, escritor, cantor e compositor.

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