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A NORMALIZAÇÃO DA BARBÁRIE

Por Marcos Dantas*

Dois casos de violência pautaram grande parte da mídia brasileira durante esta semana: o caso do congolês Moïse Kabagambe e do brasileiro Durval Teófilo.

Moïse foi espancado até a morte em um quiosque no Rio de Janeiro por ter tomado a atitude, segundo a família, de cobrar R$200,00 relacionados a uma dívida de trabalho. O congolês era refugiado da guerra que assolava o seu país de origem e percebera que no Brasil poderia ter uma vida melhor, estudou até o 2° ano do ensino médio e fazia bicos em restaurantes e quiosques para sobreviver.

O assassinato brutal de Moïse está arraigado não apenas na cobrança da dívida, mas em aspectos constituídos socialmente no Brasil. Percebe-se neste caso que as características sociais da vítima revelam a história dramática que refugiados, pretos(as) e pobres vivem em suas rotinas de na busca pela sobrevivência em um país que normaliza o absurdo de um assassinato brutal. Se Moïse fosse um homem branco e de classe média alta, qual seria a reação dos brasileiros(as)?

Já o brasileiro Durval Teófilo tornou-se vítima fatal por engano ao ser atingido por disparos de arma de fogo por um sargento da Marinha que o confundiu com um ladrão, Durval era um homem preto, trabalhador, pai de família e, de acordo com a família, amigo solícito. Entende-se neste caso que a vida de uma pessoa preta pode ser findada apenas por alguém confundi-la com um ladrão o que significa “achar que era bandido” e esta confusão está estabelecida pelo racismo engendrado na essência da sociedade brasileira.

As características sociais e o racismo definem, no Brasil, quem pode matar e quem pode morrer, seja por engano ou não. A confusão de um militar por achar que seu vizinho preto era um ladrão, destruiu sonhos e tirou do convívio de uma criança de 6 anos o pai que era um homem trabalhador. Duas situações distintas que podem ser analisadas de diversos âmbitos, entre eles, a formação do estado brasileiro enraizada no processo escravocrata que até hoje revela consequências brutais para os negros(as).

Um país que demorou a abolir a escravidão, fato este que acontecera em 1888 e que completará 134 anos este ano, desvela que a figura da pessoa preta é corriqueiramente violentada socialmente no que tange à falta de oportunidades para que a grande maioria possa ocupar cargos de primeiro escalão no mercado de trabalho, que tem negada a educação de qualidade que favoreça a inserção nas universidades de forma competitiva e que em inúmeros casos morta, seja por uma dívida trabalhista ou por uma confusão de um homem honesto com um ladrão.

Não se pode normalizar a barbárie, é necessário que se cobre justiça para esses dois casos e tantos outros que colocam como vítimas fatais homens e mulheres que tem seus destinos selados à crueldade apenas pela cor da pele.

*Marcos Dantas é cientista social licenciado pela UESC.
2 Comentários
  1. Magno Diz

    Parabéns Cientista Social Marcos Dantas!

  2. Maria Diz

    Eu amo esse cara, é cirúrgico em tudo que escreve 👏🏽

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