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AINDA ESTAMOS EM PROCESSO DE DESACORRENTAMENTO DOS ‘ESCRAVOS’

Artigo de Gabriel Guedes

No dia em que se comemora a validação da Lei Áurea, ocorrida em 13 de maio de 1888 e assinado pela princesa Isabel, o nosso país vive ainda o processo de desacorrentamento dos ‘escravos’. Abolimos apenas a formalidade do ato de escravizar, acabando assim com a naturalidade. Entretanto, vivenciamos em pleno século XXI, 133 anos depois da criação da lei, as mesmas violações enfrentadas pelos escravos daquele tempo.

Áurea significa ouro, e a expressão foi pensada ao caráter glorioso que aquela lei propunha na época, onde se imaginava por fim na forma desumana de explorar o humano. Lindo no papel, terrível na prática. Esse processo foi cruel e resultou em muitos problemas sociais que hoje somos obrigados a conviver, muitos ainda sofrendo as marcas desse passado sombrio.

Fica então o questionamento: o que se deve recordar em uma data como essa? Sinceramente, não vejo razões pelas quais torne esse dia um sentido libertador, mas sim reflexivo. O que estamos fazendo para libertar nossos escravos? Aqueles que zombamos, ou acreditamos que é uma desculpa esfarrapada. Aqueles que escravizamos psicologicamente, com insultos e piadinhas desnecessárias. Quando vamos mudar isso? Quem mais deverá sofrer com isso?

Ainda existe a escravidão política, daqueles que se submetem ao interesse pessoal. Esses podemos chamar ironicamente de ‘senhorzinho’, mesmo percebendo que está errando, ali continua a maltratar quem não merece ser maltratado. As perseguições e corrupções, acaba tirando de quem precisa o sustento e eles não se importam com as consequências disso.

A fome, essa é terrível e o mais desumano dos sofrimentos, que até hoje convivemos. A falta de expectativa, viver por viver, sem ter propósitos. Os sonhos de que um dia tudo isso vai melhorar, e terão assim o mínimo de dignidade para sobreviver. Desacorrentados, esse é o termo correto para o quem chamam de abolição da escravatura. Tiraram apenas o que prendia e torna posse de quem o detinham, mas continuaram acorrentados diante o cenário social, sem ter o que fazer e sem saber pra onde ir.

Largados e esquecidos por todos, esses escravos estavam apenas livres dos açoites e surras que levavam, mas a fome e a falta de meios para se manter ainda eram realidades, ainda são realidades. Marginalizaram-se, formando assim as comunidades que hoje chamamos de favelas. Se ajudam, porque conseguem ser solidários com suas dores. Continuam sonhando com a libertação. Buscam oportunidades.

Ainda tem quem reclama das cotas, e acha que isso é ‘mimimi’ social, dos esquerdistas, socialistas e comunistas do Brasil. Fecham os olhos para o real problema e politizam o caos. 13 de maio, um dia, uma data que precisamos refletir bastante sobre essas questões e sonhar, como todo entusiasta, de que um dia a abolição será efetivada nas almas desse povo que tanto sofre.

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