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CAMINHOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA BRASILEIRA NA PÓS-PANDEMIA

Por Richard Silveira

O Covid-19, uma pandemia de enormes proporções, que talvez essa geração nunca sequer tenha imaginado vivenciar, vem trazendo uma série de modificações em diversos setores. Talvez uma das mudanças mais significativas tenha sido no campo da educação, haja vista que, respeitada as devidas proporções e especificidades, a escola não parou! Para os entusiastas da educação tecnológica, a inserção de ferramentas tecnológicas na educação (com pouquíssima inovação em relação a outros setores) vem trazendo uma nova onda de otimismo, ao acreditar que o desenvolvimento do ensino e aprendizagem, em especial na Educação Básica irá sofrer a tão teorizada disruptura, apesar de ainda encontrar alguns entraves no que tange as relações da teoria e a prática de inserção dessas ferramentas no campo educacional.

Não podemos negar que esse momento ímpar da história da humanidade fez com que determinadas Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) foram inseridas no campo educacional de forma extremamente improvisada, salvo a exceção de instituições seletíssimas que já as utilizavam como parte integrante de seu rol de instrumentos de ensino. Um ponto que devemos salientar nesse momento é que de fato o ensino remoto possui diversas barreiras, inclusive legais, aqui no Brasil – essas barreiras foram temporariamente relaxadas, justamente para suprir a necessidade de algumas instituições e impedir que as escolas literalmente parassem, entretanto tudo indica que essas barreiras serão restabelecidas assim que retornarmos à normalidade do ensino presencial. – porém e necessário reforçar que não existe a efetiva proibição da inserção de ferramentas de ensino remoto, muito pelo contrário, alguns teóricos até estimulam essa prática, seja um canal online onde os professores possam tirar dúvidas dos alunos, ou até mesmo criar vídeos que possam auxiliar os alunos na construção de conhecimentos, esses são exemplos práticos da utilização das TIC’s em ambientes educacionais, eles não são proibidos e se tornaram uma “febre” na segunda década do ano 2000, instrumentos de fácil utilização que pode ajudar professores e alunos a romper com o paradigma de uma sala de aula que nada se diferencia das salas de aulas de 100 anos atrás.

O fato mais interessante nesse contexto de pandemia, isolamento social, escolas fechadas e aulas online foi o início de uma louca corrida para implementação de ferramentas que já estavam disponíveis a muito tempo e extremamente acessíveis, orientação de professores (os tão profetizados nas reuniões de formação e jornada pedagógicas) bem como de pais e alunos para utilização dessas ferramentas para que a dinâmica de ensino e aprendizagem não seja prejudicado. É notório que tanto em instituições de ensino públicas quanto privadas a questão financeira tem um peso maior, a escola pública sofre pela questão da disponibilidade orçamentária que já é sofrida, piora em tempos de redução extrema, em detrimento ao investimento imediato em saúde e assistência social, por outro lado a escola privada sofre pela pressão dos pais por descontos nos valores de mensalidades (inúmeros motivos são apresentados para justificar os pedidos) e o cenário nada previsível que acaba por limitar ainda mais a capacidade de se investir nessa mudança. Sendo assim, utilizando uma analogia médica, a abordagem mais prática é a de remediar do que implementar políticas duradouras para sanar o problema a longo prazo.

Temos que levar em consideração também, e é um tema bastante discutido em reportagens e entrevistas e educadores e teóricos, as diferenças socioeconômicas envolvidas nessa temática, uma vez que nem todos os estudantes possuem um computador ou smartphone, ou mesmo internet para ter acesso as aulas via internet. Essas desigualdades podem e devem ser observadas pelos docentes e gestores das instituições a fim de buscar uma forma de contemplar também esses alunos, por exemplo: uma família com dois filhos em idade escolar diferentes e com as aulas acontecendo no mesmo horário, porém eles dispõem de apenas um aparelho para acessar essa aula, como proceder? É diante desses dilemas que os docentes e gestores precisam buscar alternativas humanitárias para que nenhum desses indivíduos seja prejudicado, obviamente que essa nova demanda constitui um novo desafio para esses atores do cenário educacional.

Podemos perceber os efeitos dessa desigualdade em vários países mundo afora – até mesmo em países desenvolvidos – entretanto será mais claro no Brasil por conta das nossas demandas sociopolíticas, econômicas e históricas. E a crise econômica que é iminente – levando em consideração os dados recém-divulgados da queda histórica do PIB dos EUA no 1.º trimestre – tornará esse abismo ainda maior e, será o elemento que reduzirá ainda mais a capacidade de investimentos das instituições de ensino públicas e privadas.

Outro ponto sensível a se tocar nesse momento, é o tema da inclusão, que notamos a vastos exemplos que, respeitadas as devidas proporções, está longe de acontecer na educação presencial, está ainda mais longe de acontecer dentro do contexto da Educação a Distância, onde a quebra de rotina e de vínculos entre educador e educando que é muito importante para esses discentes, torna ainda mais difícil a efetivação de uma educação igualitária, em um cenário que mais parece que estamos trocando os pneus com um veículo em movimento. Os efeitos dessa prática são facilmente notados em casa, onde os pais nem sempre estão prontos, ou até mesmos dispostos, a apoiar o processo de aprendizado de seus filhos durante o isolamento. O mesmo podemos notar na Educação Infantil e no Ensino Fundamental I, onde a Educação a Distância pode até estar sendo promovida, porém demonstrando uma eficácia muito baixa e em alguns aspectos, mostrando-se até mesmo pouco ou totalmente inviável, porém a interação com as professoras, a qual os pequenos alunos tendem a ter um carinho especial é interessante para acalmá-los e incentivá-los o isolamento social, que é especialmente estressante para esse público.

Diante de todo esse cenário ainda precisamos notar as questões simbólicas das relações comportamentais no campo da educação, bem como os aspectos comportamentais ligados aos valores, crenças, rituais e normas que são compartilhados por professores, pais, alunos e gestores escolares dentro de uma cultura organizacional –que contratualmente estabelecemos ser escola – esses simbolismos são resistentes as mudanças e tendem, mesmo em momentos de força maior a estarem à frente das propostas progressistas de alteração do status quo. Como forma de exemplificar essa questão, basta notarmos as reclamações mais comuns que professores e gestores recebem dos pais de alunos que não se mostram satisfeitos com o andamento que as aulas, avaliações e as atividades remotas estão tendo, na verdade todo esse desconforto é basicamente o desejo implícito – a depender da forma que se apresenta, até explicito – de que tudo volte o mais breve possível ao que era antes, cada dificuldade apresentada por seus filhos se torna na verdade uma nova justificativa e não um desafio a ser vencido na comunhão família e escola, rumo a um benefício maior.

Podemos notar que uma crise tão intensa e de toda forma tão inesperada quanto a pandemia do Covid-19 nos apresenta diversas novas formas de promover várias transformações, entretanto quando se trata em estabelecer novos paradigmas para a Educação Básica Brasileira precisamos somar uma série de esforços, que de antemão encontram-se limitados e devido a questões mais imediatas, permanecerão assim por muito tempo, tanto pela crise econômica acentuada pela pandemia quanto pelas questões políticas e econômico-financeiras que são vilões do sistema educacional a bastante tempo. Entretanto, o mais interessante – e por diversas razões, o mais chocante – é que se o isolamento social, fruto dessa pandemia, continuar por mais tempo e consequentemente a suspensão das aulas presenciais, será uma forma de aumentar significativamente as chances de consolidação de, na pior das hipóteses, ao menos uma pequena parcela das mudanças tão esperadas.

Richard Silveira é Mestre em Educação, especialista em Tecnologias Educacionais.

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