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LEMBRANÇAS DA BAHIA

Por Juliana Soledade

Era Natal e como tal, muitas mesas fartas com famílias reunidas depois de dois anos nessa pandemia. E como um mal súbito, o reencontro e a felicidade se transformaram de um segundo para o outro em um lugar assustador em plena madrugada de festividade.

As mídias sociais foram nos alertando urgentemente sobre pontos alagados, que saltou para o Rio Cachoeira tomando uma proporção absurda para casas sendo invadidas, estradas interditadas, pessoas ilhadas e desespero. Entre curiosos e corajosos, pessoas que passaram a abandonar as mínimas seguranças rumo ao desconhecido, essas pessoas nos apresentaram imediatamente a fé no ser humano.

E como a água não respeita porta fechada, continuou invadindo e levando tudo o que aparecia pela frente. Um filme hollywoodiano sem pausas e com muita pressa; aterrorizando crianças, adultos, idosos, todos sobreviventes. Nos trazendo pressa, agonia e incerteza de quantos metros o Cachoeira estava subindo. Muito rápido aprendemos que muito pouco está sob o nosso controle. E isso é terrível!

É desolador acompanhar uma população querendo acordar de um pesadelo, mas não acorda, porque sequer dormiu com medo das chuvas. O pesadelo é debaixo dos olhos, com água turva, muita chuva e desespero. É estar nu na vulnerabilidade em tempo real com as conquistas, grandes ou pequenas, indo embora sem dizer adeus pela porta ou janela.

Uma noite encosta no dia, que traz outra madrugada carregada de incertezas. E quando o pior começa a acontecer, criamos uma força e uma coragem aliada ao desespero de quem não tem mais nada a perder. Anônimos que com muita nobreza salvaram tantas vidas sem saber o nome, a idade ou em qual esquina guardaram os seus sonhos. Amigos que se vestiram de solidariedade para doar fossem as mãos, a própria vida ou as orações e transformaram a dor em esperança. Essa dor quando começa a agir fruto do desespero nasce uma coragem que todos desconhecem. Não ter alternativa é o de mais mobilizador que se possa existir. A linha de frente em um desastre natural não é tarefa para covardes.

Conheci o amor que mora no desespero de ajudar, mas não há solução e nem alívio imediato. O caos estava exposto entre aquele mundo resumido em restos de qualquer coisa que a água foi capaz de destruir. Tudo, materialmente falando, já havia sido consumido pela água que mais tarde se transformava em lama jogada nas ruas, nas paredes e em alguns lugares, até no teto. É um filme de com cenas de guerra, sem ser filme por toda a cidade. E como um cenário bucólico, repetido da década de 60, mas infinitamente mais devastador.

A aflição da tragédia consegue ser potencializada ao ver muitos municípios vizinhos em situações semelhantes. Sendo ilhas e em muitos casos sem poder sair do lugar. Experenciando além da agonia, a fome e sede por mais de 30 horas.

O que importa mesmo é que a soma de pequenos esforços estão se transformando em grandes resultados. E é preciso respeitar, humildemente, a força de um povo que está saindo da lama, para se reinventar. Um povo que está conhecendo solidariedade de muito perto. Perdendo tudo, menos a dignidade.

Eu e você teremos que ser fortes, assim como a correnteza que não se intimida com as pontes ou qualquer obstáculo que possa aparecer em nossa frente. Não há outra opção a não ser seguir o seu curso, possivelmente mais conscientes e questionadores.

Transformar esse momento e deixá-lo registrado na história é como fazer um origami. Dobrar o papel até que ele voe. Até que fique mais de nós e menos do que sobrou de tudo. O caminho é longo e teremos novos tons para colorir o álbum da vida com muitas mãos.

Juliana Soledade é advogada, escritora, empresária e teóloga, pós-graduada em Direito Processual Civil, Direito do Trabalho e Direito Público, além de autora dos livros Despedidas de Mim, Diário das Mil Faces e 40 surtos na quarentena: para quem nunca viveu uma pandemia.

1 comentário
  1. Jorge Rocchigiani Diz

    Não sei se superará os danos, as “coisas” perdidas conquistadas com o “suor sagrado” do dia a dia… mas uma coisa tenho certeza: a Solidariedade de um povo que se mostrou guerreiro.
    Gratidão a todos os Seres que fizeram e fazem um lindo papel nessa história, que em meio aos tons de cinzas, sabem colorir.

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