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NOS GRITOS DE PORCINA OU NO MEIO DA SUCATA, CADÊ REGINA ?

Por Rafael Guirra*

Assim como Roque, o santeiro, quem estava oculta surgiu. Regina Du (a arte se retirou, como já sabemos) é daquelas personalidades que não se apagam quando somem, ao contrário, quanto mais voz lhe é dada maior o eco do seu desvalor. Talvez tenha se apossado do fervoroso espírito da Viúva Porcina e passou a crer que a ideia deva ser lançada no grito e, ainda mais sintomático, ligada ao todo poderoso de palavras reduzidas a “tô certo ou tô errado?”.

Normalmente ele está errado, mas ninguém o ouve, por isso chacoalha o relógio, para que seja mito e não homem, que suas expressões sejam caricaturas em vez contribuição. Dos figurinos já usados por Regina, hoje escolheu especialmente o que mais lhe molda: o senso comum. Suas falas se resumem em textos prontos, frágeis, carregados de torpezas às quais ela insiste em fantasiar de humildade e que são, em suma, inaptidão.

É então que o longevo codinome de “namoradinha do Brasil” se desvela, considerando que Regina muito se afasta do perfil pulsante e destemido de uma rainha da sucata e se reduz a um estandarte de bela imagem a ser apresentada para a família. Ora, talvez seja dessa noção distorcida de família, na qual a mulher não interfere nos assuntos do chefe da casa, que advém a sua omissão em relação à cisão que ocorre no seu núcleo; cisão esta pautada em acusações graves sobre ilegalidades capazes de transformar o seu abrigo em uma grandiosa selva de pedras.

Ainda sobre os lugares-comuns pelos quais passeou, forçoso dizer que a frivolidade é sua razão de ser e estar. Somente uma política de horizontes pequenos travaria o silogismo “Regina fez novela – Novela é Cultura – Regina fará cultura”. E assim fizeram. Ocorre, Regina, que não é quem comanda a pasta (ou quem a adorna) que faz a cultura, e isso merece um longo debate. O seu papel é promover políticas de incentivo à cultura, possibilitar e potencializar uma matéria prima que está viva e que é feita de carne, osso e, sobretudo, alma.

Tamanha complexidade só é possível com o domínio da missão e para isso, vale ser didático. Assim como o ator que sobe ao palco e vê, antes do espetáculo, dois tecidos que formam uma cortina, é preciso enxergar dois panoramas que norteiam a cultura no país. O primeiro é a sensibilidade para compreender que a cultura, as tradições locais, as manifestações artísticas e outros fazeres da sua alçada se fazem em cada esquina, em cima de caixotes, em paus-de-arara, debaixo das lonas.

A maioria dos artistas trabalham exaustivamente e eles não são globais, não tem luxuosos camarins ou o mimo de receber seus textos no ponto eletrônico, por isso não podemos desperdiçar o tempo que a senhora alega se dedicar tanto sem obter qualquer resultado. O segundo, e talvez mais inquietador, é o negacionismo do passado trágico que vivemos e que nos ronda na atualidade.

Não soa ingênuo, Regina, alegar que a Cultura está acima de qualquer partido. Não é preciso grande esforço para ver que ela é constantemente sufocada pelo poder e só consegue emergir, de maneira relutante, se conquistar espaço. Digo isso porque viemos de um histórico de censura, repressão e uma distorção que por ser política e social, é também cultural. A cultura não estava acima de partido quando exilou e prendeu Gil, Caetano, Paulo Freire, Paulo Coelho e continua não estando quando censura Letícia Sabatella ou chama Fernanda Montenegro de sórdida.

Estranho, Regina, que lhe pesem as costas os ossos dos nomes fundamentais para a identidade nacional, haja vista as homenagens aos que partiram serem ponto marcante da nossa cultura o que nos leva a crer que não sejam os ossos que incomodam, mas os fantasmas da consciência. Você não conheceu Aldir Blanc, não lamentou por Migliaccio, Moraes, Fonseca; não aceitou a crítica de Maitê e pediu que ela a fizesse para o seu celular, você não sabe diferir público e privado; você se assume lavajatista fanática mas se ofende ao ter gravações íntimas reveladas; você não respeitou colegas ao colocá-los ao seu lado num painel do desgoverno e da descultura; você desconhece a Funarte e a Ancine; se submete a um comando insindicável e ostenta falas sobre democracia. Regina, por amor, compreenda que o Brasil precisa reconhecer os que deram a alma e os ossos para chegarmos aqui, ossos que tu insistes em renegar. Não basta olhar para a frente com uma falsa alegria, como se vivêssemos nas paisagens serenas de Copacabana das novelas de Manoel Carlos. Nós não precisamos da sua apatia e do jeito Helena de ser. Cadê você, Regina?

*Ator; Graduando em Direito pela UESC; presidente do Instituto Macuco Jequitibá

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