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O NEOLIBERALISMO EM XEQUE

Por José Cássio Varjão

Após 30 anos no poder, com os partidos Partido da Ação Nacional (PAN) e Partido Revolucionário Institucional (PRI), partidos de direita e centro-direita, respectivamente, o Movimento Regeneração Nacional (MORENA), partido de centro-esquerda, vence as eleições no México em julho de 2018, com Andrés Manuel Lopes Obrador. Com um sistema eleitoral de turno único, o novo presidente mexicano obteve 53,19% dos votos válidos, tornando-se o presidente mais votado da história mexicana.

Em outubro de 2019, a Argentina elege, em primeiro turno, o peronista Alberto Fernández, do Partido Justicialista, de centro esquerda, com 48,24% dos votos válidos. A legislação eleitoral argentina antevia que se em primeiro turno nenhum candidato chegasse a 40% dos votos válidos e 10% de vantagem sobre o segundo colocado, ou 45% dos votos válidos, independentemente dos votos do segundo colocado, haveria segundo turno. Como o presidente eleito obteve 48,24% dos votos efetivados, a eleição se encerrou em primeiro turno. Alberto Fernández derrotou Maurício Macri, do Partido Republicano, com espectro de centro-direita, defensor do conservadorismo, conservadorismo liberal e liberalismo econômico.

Outubro de 2020, Luís Alberto Arce Catacora, do Movimento Socialista (MAS), é eleito presidente da Bolívia em primeiro turno, com 55,10% dos votos válidos. Luís Arce sucedeu a Jeanine Áñez do Movimento Democrático Social (MDS) partido de centro-direita, que se autoproclamou Presidente da Bolívia em 2019, após a renúncia de Evo Morales.

Julho de 2021. Cinco semanas após o término da eleição, o Júri Nacional de Eleições do Peru (JNE) proclamou o professor e dirigente sindical Pedro Castillo, como vencedor das eleições peruanas, em segundo turno. O presidente eleito da Bolívia derrotou Keiko Fujimori, do partido Fuerza Popular, com espectro político à extrema direita, que defendia o conservadorismo, neoliberalismo, anticomunismo, populismo de direita e o liberalismo econômico.

Honduras, 2021. Iris Xiomara Castro de Zelaya, do Partido Liberdade e Refundação (LIBRE), de esquerda, é eleita Presidente da República, com 50,63% dos votos válidos. Ela derrotou o governista de direita Nasry Asfura, do Partido Nacional de Honduras, que obteve 36,43% dos votos válidos. Xiomara Castro obteve mais de 1,7 milhão de votos e se tornou a mais bem votada da história política hondurenha.

Chile, dezembro de 2021. Gabriel Boric, do partido Convergência Social, vence em segundo turno, José Antonio Kast, do Partido Republicano, por 55,87% contra 44,13%, respectivamente. Ex-líder estudantil, Boric, de 35 anos, é o segundo político mais jovem a ascender ao cargo mais importante do governo de um país. Antes dele, só Sanna Marin, com 34 anos, chegou ao cargo de primeira-ministra da Finlândia. Kast, de 55 anos, é um advogado, político de extrema direita e ultraconservador, é o presidente do Partido Republicano. Oportuno mencionar que uma das experiências neoliberais no Cone Sul ocorreu no Chile, em meados da década de 70, por meio da chamada Escola de Chicago, em que o pensamento econômico defendia o livre mercado. Tinha como um dos expoentes Milton Friedman e o atual Ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, era um dos membros. Ficaram conhecidos como Chicago Boys.

A ascensão dos governos de centro direita a extrema direita no cone sul, com discursos que combinavam ordem, moral, família, ética e religião, não se mostraram confiáveis e os resultados das eleições no México, Argentina, Bolívia, Peru, Honduras e agora no Chile deixam os neoliberais na região em alerta. Mais recentemente, a derrota de Donald Trump, representante máximo dessa linha de pensamento, foi o golpe mais duro que receberam.

O neoliberalismo se iniciou no Brasil com Fernando Collor de Melo, em 1989, com o chamado Plano Collor. Prosseguiu com Fernando Henrique Cardoso, quando o Estado passou de grande desenvolvimentista e investidor para Estado regulador. Um caso com grande relevância foi a privatização da Telebras e das empresas estaduais de telefonia, criando-se assim a Anatel, que regularia a prestação de serviços pelas empresas privadas.

O Consenso de Washington, em 1989, que apresentou um grupo de medidas econômicas no International Institute for Economy, na capital do país, Washington-DC, estava embasada nas políticas neoliberais e tinham como objetivo o crescimento econômico e o desenvolvimento social dos países latino-americanos. Participaram do evento o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), agentes do governo americano, a elite dos economistas americanos, além de John Williamson, economista inglês, autor do documento. O ponto fundamental do Consenso de Washington era expandir o neoliberalismo nos países da América Latina e, para que a cooperação financeira, via FMI e Banco Mundial, ocorresse, ou seja, a negociação das dívidas externas dos diversos países, era condição essencial adotar o sistema neoliberal. Com os países da região vivendo diferentes realidades, diversas consequências negativas ocorreram, como o aumento de desemprego, alta da inflação e das taxas de juros, além da imensa desigualdade social.

As consequências negativas da aplicação do que propôs o Consenso de Washington e a real situação de países do terceiro mundo, não permitiam a implementação de algumas políticas neoliberais, como o estado mínimo. O que Margareth Thatcher fez na Inglaterra e Ronald Reagan nos Estados Unidos da América, na década 80 do século passado, com relativo sucesso, na prática, foi um desastre com países pobres da América Latina. Todo modelo econômico pode ser implementado com sucesso em alguns países, em outros, não.

A influência da mídia tradicional e a extraordinária aceleração dos fluxos de comunicação e de informação proporcionada pelos dispositivos tecnológicos, como as mídias sociais, nos levaram a experimentar um ambiente de acirrada disputa entre dois dos principais polos do espectro político, à direita e à esquerda. Para o Cientista Político norte americano Robert Dahl (1915-2014), “a influência é uma relação de poder entre atores, na qual um ator induz outros atores a agirem de um modo que, em caso contrário, não agiriam. Mostra que a televisão é um polo ativo do processo de seleção e divulgação das notícias e interpretações que delas são feitas. Ela não é mera observadora, tem o poder de interferir nos acontecimentos”.

O que aconteceu em alguns países da América do Sul nos últimos anos e poderá acontecer no Brasil em 2022, será uma consulta, um escrutínio sobre a continuidade do modelo econômico neoliberal, que com a pandemia do coronavírus, mostrou todas as suas fraquezas. Esse será o prato do dia. Os bordões, Lula, ladrão; Bolsonaro, miliciano ou genocida, farão parte da retórica vencida daqueles desinformados, que só discutem política a bordo de um aparelho celular. Nada mais que isso.

1 comentário
  1. Ivan cumial de oliveira Diz

    Parabéns, excelente texto!!!

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