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O PANDEMÔNIO DA EPIDEMIA

Por Gustavo Felicíssimo*

Já que o período é de reclusão forçada, nada mais adequado a um cronista que refletir a seu respeito. Olho repentinamente para a minha modesta biblioteca e me ocorre que viver sem a inelutável companhia dos livros, em qualquer tempo, me seria inviável. Ainda mais se é imperativo abandonar as ruas. De modo que ficar em casa não é mais uma opção, mas uma imposição da circunstância. Assim, me parece imperativo dizer que o tempo, além de crônico, é viral.

Só que minhas raízes são errantes. E então, após alguns afazeres profissionais, me encontro caminhando pela cidade, por calçadas que havia bem pouco tempo estavam tomadas por toda sorte de gente no seu ir e vir incessante, frenético. Onde lojistas noticiavam os produtos da última moda, agora encontramos outro tipo de informação: fechados por tempo indeterminado. Não há mais anúncios, mas prenúncios de que dias ainda mais difíceis estão por vir.

Todas as notícias agora são variações sobre um mesmo tema. Que nome dar a isso? Que questões para além do problema de saúde pública a circunstância atual evoca? As autoridades sanitárias parecem indecisas. Os governos parecem indecisos. Gastam-se milhões, bilhões em ações remediadoras, como novos leitos em hospitais e hospitais de campanha que, espera-se, não sejam utilizados. Mais que isso: torcemos para que não sejam usados.

E isso é tudo que se pode fazer? Claro que não! Só que tudo parece tão débil e precário frente ao tsunami de horrores que vemos, muito embora bons exemplos estejam pululando, com pessoas se reunindo em grupos para algum tipo de ajuda humanitária. Instituições também. Um escritor doa o valor arrecadado com a venda de seus livros para uma instituição de caridade. Psicólogos formam um bloco para assistir remotamente quem precisa de auxílio. Voluntários arrecadam alimentos para o lar dos velhinhos. Capuchinhos preparam e entregam marmitas a necessitados. Uma cantora famosa doa mil camas para ajudar o governo do estado a melhor aparelhar os hospitais. Uma empresa de grande porte e inserção midiática faz o mesmo. Mas religiosos de algumas denominações queriam seus templos abertos.

Estes tratam as igrejas que fundaram como um negócio pessoal, e aqueles a quem chamam de fieis, como seus clientes. Um empreendedor velho e careca, muito conhecido, que montou seu negócio na base da alavancagem (endividamento), diz que pode demitir todos os seus funcionários e ainda sair para curtir uma praia, caso o consumo não retome o seu caminho natural. O Presidente faz apostas insanas, como naquele pronunciamento exortando as pessoas a abandonarem a quarentena. E ainda se refere às consequências causadas pelo vírus como uma “gripezinha”, um “resfriadinho”. Ele que vá tomar no olho do cu dele. E aí vem uma deputada (aliada dele) dizer que se Bolsonaro continuar “fazendo graça”, são os militares que irão tirá-lo do Palácio do Planalto. Não. Por mais dúbia que seja a sua gestão, e seu modo de agir, o país não tem estômago para um golpe militar.

No geral, a sensação é a de que caminhamos a passos de caranguejo. Para os lados. Mas, diferente do crustáceo, cujas patas trabalham em sincronia, aqui o que percebemos é a falta dela. Governos não se entendem. Famílias se desentendem. E tudo por questões políticas. Ou por falta de política. Não é mesmo? E tome-lhe mais uma falta, a de bom senso.

Todos esses aí, atravancando os nossos caminhos, por conta das eleições que se aproximam. A lógica é a seguinte: quem parecer se sair melhor agora reclamará votos pautados em suas ações durante o período da pandemia. E haja clipagem de notícias para usos no futuro. É o homem e a sua circunstância, não é mesmo Ortega? Ou seria o político e a oportunidade para se tirar o melhor proveito da situação? E olha que estamos longe, muito longe, dos limites. Que não são aquém nem além. Mas estão dentro das margens do agora e se ocultam no mais que fluido fluxo de consciência e ignorância que desfilam todos os dias em uma espécie de sinestesia da histeria, em que todos os significados parecem insignificantes. Salvo um deles: o que diz para nos preservarmos dentro de nossas casas.

De minha parte, o que anseio sinceramente é hoje uma grande utopia. E que um grande amigo, cujo nome preservo, me perdoe por isso: espero que após esse pandemônio todo surja uma nova consciência, em que a união, a fraternidade e o uso mais racional dos recursos do planeta nos permita a união dos povos e a eliminação de toda diferença social. Como consequência disso, a paz para todos em todos os recantos do planeta. E fim.

(*) Escritor e Editor da Mondrongo,
autor de alguns livros de prosa e poesia, entre os mais recentes estão: Carta a Rubem Braga (Crônicas, 2018) e Oratório das Águas (Poesia, 2019)

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