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O QUE ACONTECE QUANDO O ESTADO SE OMITE?

Por Leila Oliveira, servidora pública, psicóloga, escritora

O texto sobre o caso Esther Vasconcelos, divulgado pelo blog Ipolítica é assertivo quando reconhece, na situação, a existência de (pelo menos) duas vítimas. Conforme foi veiculado, um rapaz com transtorno mental agrediu o companheiro de uma mulher, a quem ele persegue há sete anos. Afirma-se que outras mulheres também já foram agredidas por esse rapaz.
A situação tomou uma proporção tal que resultou no linchamento do rapaz. A repercussão foi ilustrada com opiniões que variam desde a concordância com o linchamento até a defesa do retorno dos manicômios. Onde pessoas acometidas por transtornos psíquicos sofriam toda sorte de desrespeitos e maus tratos.
Porém pouco se questiona sobre a forma como o rapaz foi cuidado no decorrer desses sete anos, e inclusive após ter cometido a última agressão, já que ele ficou suscetível ao linchamento.
Diante de situações extremas há uma tendência da comunidade se posicionar rapidamente com comentários e julgamentos sem fundamentação, excludentes e desumanos.
Sobretudo, convenientes a uma gestão pública que se omite onde deve se responsabilizar.
Omite-se quando deixa grandes lacunas em medidas educativas, preventivas e de combate à violência contra a mulher e na falta de estruturação e/ou manutenção da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Não é de manicômio que se precisa, e sim de uma rede efetiva, tal qual está previsto em lei e regulamentado. Minimamente com equipes multiprofissionais nos Centros de Atenção Psicossocial CAPS), Unidades Básicas de Saúde e leitos psiquiátricos nos hospitais para situações de crise. Além de suporte e cuidado para a família e cuidadores.
Essa é uma questão: Como está operando nossa rede?
Ela consegue absorver a demanda de psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico da comunidade?
Isso, apenas no que se relaciona ao cuidado específico com a saúde mental. Pois no que se refere à responsabilidade do poder público, será necessário trazer à discussão a carência de políticas públicas de fomento ao esporte, cultura, laser, educação, emprego.
Frequentemente recorremos a culpabilizações ou “soluções” individualizadas em situações em que o Estado deve atuar. No referido caso, os dois lados precisam de proteção e intervenção.
Absurdos assim, vão se tornando corriqueiros, banalizam aos nossos olhos o modo que o poder público decreta como algumas pessoas podem viver e como outras devem morrer no sistema capitalista.
Enquanto a gestão pública se omite, a sociedade se digladia defendendo os discursos convenientes ao próprio Estado. Necropolítica operando da forma mais efetiva.
Leila Oliveira, servidora pública, psicóloga, escritora
1 comentário
  1. Marisa Diz

    Excelente texto! Uma discussão pertinente que poucos querem abordar exatamente porque a criminalização do adoecimento também é estrutural, fazendo com que a responsabilidade do estado seja minimizada nos espaços e nos discursos sociais. Nenhuma violência pode ser naturalizada.

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