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OS DIFERENTES E OS DESPREPARADOS

por Eric Souza

O triste caso da mãe brasileira que precisou percorrer quilômetros e quilômetros para tentar salvar a vida do seu filho, vítima de embolia pulmonar grave por obesidade mórbida torna cristalino como a sociedade brasileira está despreparada para lidar com o diferente.

Antes de mais nada, é preciso entender que ninguém tem culpa ou responsabilidade pelas suas características físicas, sejam elas quais forem: gordo, magro, alto, baixo, negro ou branco.

Se a Constituição Federal diz que “todos são iguais perante a lei”, então, é preciso que essa máxima se faça efetiva em todas as suas circunstâncias.

Nunca se sabe quando os serviços públicos, sejam eles quais forem, será provocado por uma necessidade específica de atendimento, mas é imprescindível que, quando isso acontecer, o poder público responda à altura, garantindo o que está previsto em lei.

Infelizmente, isso não aconteceu para com essa senhora e, de maneira ainda mais tocante, para o seu filho, que não aguentou a via crucis a que foi submetido e acabou falecendo.

Para além do fato, ter um filho com sua vida perdida não foi o bastante. Era necessário algo que aí seria compreendido como “a cereja do bolo” num conjunto complexo de negações, hipocrisia, preconceito, gordofobia e humilhações.

A urna funerária separada para sepultar o jovem falecido chegou para a mãe cheia de lixo, com a mensagem subliminar do que estava ali representado.

 

“Um gordo é um lixo!”

É preciso entender o que está posto no início desta reflexão: ninguém, absolutamente ninguém, escolhe ser o que é. Ninguém, absolutamente ninguém escolhe chegar a um ponto específico de características físicas em que se impõe um peso de 190 quilos sobre o próprio corpo, impedindo inclusive que o jovem fosse socorrido numa ambulância adequada. Foi transportado no chão do veículo.

Não resistiu.

E foi chamado de “lixo”.

Por todas as negações, humilhações, preconceitos e falta de socorro que foi negado à essa família, há que se proceder: 1) a devida investigação sobre as responsabilidades (ou a falta dela) que culminou com o falecimento do jovem que passava mal; 2) essa família precisa ser indenizada em tudo o que enfrentou e vem enfrentando; 3) é preciso que o Brasil, mais uma vez, se olhe no espelho, e compreenda que o seu reflexo não é aquele que está em novelas, em filmes, em comerciais de televisão ou num imaginário que liquida a realidade social do país e dos seus cidadãos, atores que se movem anonimamente como peças de uma máquina que não para de funcionar.

Desses reflexos todos, o principal deles é o que nos permite deduzir que o Sistema Único de Saúde, com todas as suas potencialidades e qualidades, ainda precisa melhorar muito no tratamento (não só o da patologia em si), mas o trato humano, a maneira de se lidar, o manifesto do acalento, sobre todos e todas que sofrem de obesidade mórbida e precisam acessar a cirurgia de redução estomacal.

E pensar: outra mãe vai precisar passar pelos mesmos constrangimentos para que essa notícia não volte a se repetir?

Outra mãe precisará chorar sozinha a morte do seu filho, enquanto outros acham cômico o que aconteceu?

Indenização não trará o filho dessa senhora de volta, mas que o que aconteceu com ela sirva de referência para que o olhar que o povo brasileiro tem sobre si sirva para que estejam reconhecidas ali a incapacidade do povo brasileiro de se entender naquele lugar de fala, de protesto, de choro e sofrimento.

Se um brasileiro se olhar no espelho e não enxergar aquele jovem que faleceu, então esse país precisa de muito mais que um presidente que nos dê esperança no futuro, para chegarmos aonde queremos.

Desenvolvimento? Estaremos longe disso, infelizmente, e não se trata de distância somente. Se trata de tempo. Precisaremos de décadas para termos de verdade um país em que todos serão iguais perante a lei.

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