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RENASCER ILHÉUS

por Eric Thadeu

O capítulo desta quinta-feira, 09/02, do principal produto de entretenimento da Rede Globo, a novela das nove, “Renascer”, causou surpresas ao telespectador baiano e principalmente os do Sul da Bahia e de Ilhéus.

No capítulo, todo o roteiro usou e abusou das paisagens mais bonitas da princesinha do sul, numa sequência de cenas em que o personagem José Inocêncio (nesta segunda fase, vivido pelo ator Marcos Palmeira), visitava a cidade junto com Mariana (Theresa Fonseca).

Os enquadramentos mostraram a Catedral de São Sebastião, o Bar Vesúvio (eternizado no romance de Jorge Amado, “Gabriela Cravo e Canela, que também foi gravada e regravada pela emissora), o Museu Casa de Jorge Amado e ainda houve tempo para uma sequência nas belíssimas águas do Oceano Atlântico que banham o distrito de Olivença.

Cada cena que ia ao ar era um sopro de votos de um futuro cheio de progressos para a cidade que possui a maior faixa de praias do estado, 90 quilômetros das zonas Sul à Norte.

Afinal de contas, quem não gostaria de ver sua cidade como plano de fundo de uma novela que vai ao ar para todo o território nacional com a marca da emissora de TV que mais detém audiência no país?

Propaganda de graça com resultado certeiro.

“De graça?”, perguntariam os mais desacreditados de que uma Rede Globo nunca faz nada de graça para ninguém.

O fato é que as cenas foram ao ar. E nas redes sociais tem gente agradecendo desde ao prefeito de Ilhéus, Mário Alexandre (PSD) até ao governador da Bahia Jerônimo Rodrigues (PT) e ao ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), dado o impulsionamento turístico que a cidade deve ter a partir da vitrine onde Ilhéus aparece como um dos melhores produtos turísticos que o Brasil pode oferecer aos seus natalícios e aos seus visitantes estrangeiros.

Contudo, se a Rede Globo regrava uma novela ambientada numa das principais cidades turísticas do Estado, é preciso que se devolva a contrapartida daquilo que se anuncia no horário nobre da maior emissora do país.

Os diretores artísticos da Rede Globo dizem que a regravação de Renascer comemora os 30 anos da primeira versão da novela, trazendo-a com uma nova roupagem e, em determinados aspectos, até com novas narrativas, especialmente para contextualizar os velhos tempos em que donos de grandes fazendas de cacau eram chamados de “coronel”, o que já não se pronuncia nos dias atuais.

De mais profundo que se pode analisar sobre a importância dessa propaganda corajosa, é não a tornar enganosa.

Ilhéus é sim uma cidade cheia de belas paisagens, com uma arquitetura urbanística toda dela, especialmente depois que ganhou a primeira ponte semiestaiada da Bahia, a Ponto Jorge Amado, atravessando a Baía do Pontal, ela que também foi projetada diversas vezes na tela.

Mas, se de um lado, se tem belas paisagens, do outro, há uma dívida histórica com o seu povo, uma dívida que não vem da gestão atual, tampouco dos últimos prefeitos que naquela cadeira do Palácio Paranaguá se sentaram.

Ilhéus precisa renascer, tal qual se deduz no título da novela que a coloca no centro da história de amor que divide pai e filho em campos opostos. Mas, precisa renascer principalmente para o seu povo e para quem é da região e privilegia aquela cidade para um final de semana divertido e cheio de maravilhas.

Para esses, não se atrevam a visitar Ilhéus de ônibus, seja para o Sul, seja para o Norte. O serviço de transporte intermunicipal, especialmente nos horários de retorno são incondizentes com a ideia de diversão que se propõe quando se pensa num final de semana na praia. É stress sem tirar nem pôr.

Quem não estiver preparado financeiramente, também precisa se aprumar para um ‘plano B’. Almoço nas cabanas e bebidas exigem um investimento que não está sob o alcance da maioria das pessoas.

Se alguém conseguir acarajé na praia por R$ 5, estenda as mãos para os céus e dê glória ao Senhor.

Ilhéus precisa replanejar a ocupação desordenada nos morros, principal motivo de preocupação da sociedade e do poder público, principalmente nos períodos longos de chuvas torrenciais.

Ilhéus precisa refazer todo o seu sistema de esgotamento e rede pluvial, pois não precisa uma chuva muito forte para transformar um dos principais cartões postais da cidade, a Avenida Soares Lopes, num rio em cima do asfalto. Isso, sem falar em outras ruas e avenidas.

Ilhéus precisa entender historicamente o que acontece com a localidades de São Domingos e São Miguel para encontrar soluções para a constante invasão das águas do oceano sobre ruas, residências e comércios que ali estavam para os moradores, proprietários de imóveis desfrutassem o privilégio de admirar a natureza em todo o seu esplendor e os empresários e microempresários de explorar do ponto de vista do empreendedorismo tudo o que aquela região um dia já ofereceu a quem acreditou no potencial daquele lugar.

E isso não é um desafio puramente político. Isso é um desafio que vai para todo o seu povo e para a região Sul da Bahia, talvez somente possível de se resolver quando de fato e de direito se entender essa região como uma megametrópole. Ilhéus e Itabuna, juntas, devem ter algo perto de 0,5 milhão de habitantes. Duas cidades do interior com pujança de desenvolvimento, entrecortadas por desafios que parecem de capitais. Da organização do trânsito às condições dignas de moradia, Ilhéus precisa ser repensada, discutida, debatida em seus próximos 20, 30, 40 anos, no pós Complexo Aeroportuário que se desenha e já se concretiza nas proximidades da Vila Juerana, nas rodovias que se desenham ao sabor das curvas de cada praia e, principalmente, para que de fato e de direito, se enxergue na princesinha do sul a cidade que renasceu, tal qual se propõe na novela de sucesso que estará no ar pelo menos até perto das eleições.

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Eric Thadeu Nascimento Souza é comunicólogo, gestor cultural, radialista e redator no Grupo iPolítica de Comunicação.

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